A maré encheu

19 de Janeiro de 2009

Custa-me começar assim, mas a maré encheu. Morreu João Aguardela, baixista e fundador d'A Naifa. Não esquecendo a carreira anterior (Sitiados, Linha da Frente, Megafone), Aguardela deixa-nos agora a ouvir os três magníficos discos do "grupo de fados e guitarradas mais atípico de sempre", da "banda pop mais portuguesa da actualidade". É muito difícil a quem conhece não concordar que A Naifa foi (é?) a melhor banda que apareceu em Portugal desde há largos anos: onde mais a sonoridade consistente e moderna, a bravura das letras, a grande voz, a bateria possante, a guitarra portuguesa a libertar-se do mofo, e um baixo omnipresente a abraçar tudo isto? Em lado nenhum. Eram (são?) magníficos.

Nunca me hei-de esquecer de ver o João a fumar no palco do Aveirense, enquanto a sua guitarra descansava e a Maria Antónia cantava. Foi o melhor concerto que eu já vi.

Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa

Hoje abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal
olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo
Os milagres acontecem é um poema de Ana Paula Inácio, in A Naifa, Canções Subterrâneas (2004).

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